Relatos

Retorno ao Aconcágua 2011

31 de janeiro de 2016

Depois de muito refletir sobre a expedição de 2009, sem falar nada saudade eu resolvo voltar em 2011. Precisava fazer a coisa certa, dessa vez com meu amigo André.

Normalmente todos vão para a montanha pensando em cume, passei a entender que isso é apenas a cereja do bolo. Vamos curtir os 17 dias de montanha que está no cronograma.

O André mal sabia o que era uma trilha, portanto tinha que dar toda assistência. O fato dele ler bastante e procurar se informar ajudou bastante.

Colocamos tudo na planilha, orçamento, cronograma, equipamento, fizemos um check list, entramos em contato com as empresas que prestam serviços no parque e aluguel de equipamentos tudo com antecedência.

Chegada em Mendoza – 26 de Novembro

Ficamos hospedados no Hotel Savoy, bem simples na avenida Belgrano 1377, mesmo lugar de 2009. A localização é boa por ficar a uma quadra do Carrefour (Belgrano x General Las Heras). Mas pensando melhor, hoje eu ficaria um pouco mais próximo da loja de equipamentos devido ao peso que é preciso carregar.

No jantar fui matar a saudade no restaurante La Florencia que eu ja conhecia pelo seu saboroso bife de chorizo. Fui quase todos os dias, prometo que na próxima vou conhecer outros restaurantes 🙂

Domingo 27 de Novembro

Dia do descanso e no final do dia fui buscar o André no aeroporto.

Segunda 28 de Novembro (feriado)

Todos os equipamentos alugados na Mountain Gear, loja de equipamentos na rua Espejo próximo a praça principal. Quando cheguei em Mendoza descobri que neste dia seria feriado, ainda bem que o pessoal da loja cumpre o combinado e só abriu a loja para nos atender.
Como fizemos a reserva só provamos as botas e as roupas que o André precisava.
Em seguida fomos tirar o permisso e depois comprar passagem de bus para Puente del Inca.

A Aconcagua Trek que fez a nossa logistica não abriu o escritorio, mas respondeu por e-mail que podemos seguir até Los Puquios como combinado.
O resto do dia foi para arrumar as malas/mochilas. Alugamos uma mala para transporte, estava novinha e devia caber uns 100L.

A logística de nossa bagagem foi o seguinte:
1ª Mula para Confluencia – Cerca de 40 kg com nossas barracas, alimentos, roupas, fogareiro e outros itens essenciais para poder passar 2 noites. Esta mula foi para Confluencia no mesmo dia que entramos no Parque.
2ª Mula para Plaza Mulas – Entrou no Parque no terceiro dia com 20kg, parou em Confluencia e para carregar os 40kg restante de nossos equipamentos.
3ª Mula retorno de Plaza Mulas – Normalmente retorna mais leve pois os alimentos foram consumidos e o que sobrou doamos para a GeoTrek.

Terça – 29 de Novembro

Tudo parecia bem organizado e pronto para o embarque. Na espera do ônibus conhecemos Pollo, argentino que estava indo a trabalho e nos acompanharia até Plaza Mulas.

Descemos em Los Puquios onde a van do Aconcagua Trek nos esperava. Nos levaram a Puente del Inca e combinamos os horários para retirada dos equipamentos para as mulas e a entrada no parque no dia seguinte.

Para quem não conhece este tipo de clima e altitude, recomendo passar uma noite em Puente del Inca, apesar dos 2800m mal se percebe algum efeito da altitude, o clima já é bem diferente com o ar bem seco, ventos e temperatura mais baixa principalmente a noite. Então é o começo para o nosso corpo se aclimatar com o novo ambiente.

Quarta – 30 de Novembro

O grande dia, arrumamos as mochilas, separamos em outra mala o que não utilizamos para a AconcaguaTrek guardar para nós, tomamos o café da manhã e a van passou às 10h e nos levou até a entrada do parque na primeira casinha para entregar o permisso. Com o permisso carimbado a van nos levou até Harcones (2km da entrada), e iniciamos a caminhada.

Iniciamos nosso trekking de forma tranquila e que durou 3h. Quando chegamos em Confluênca, passamos pelos guarda parques para fazer o check-in e montamos as barracas. Mais tarde passamos pelo medico e tudo ok.

Quinta – 01 de Dezembro

Acordamos às 7h e depois do café da manhã partimos para o mirador Plaza Francia (4.200). Depois de 5h chegamos ao mirador Plaza Francia. André continuou até o acampamento de mesmo nome, pedi para tomar cuidado com os glaciares na volta, que ficam um pouco camuflado pela terra.

Retornei testando da rota que estava no GPS, tava um pouco estranho o caminho marcado mas cheguei numa boa. Você sempre vai estar caminhando por um vale e não tem pra onde “fugir”. André demorou para voltar e eu e o Pollo ficamos preocupados, mas no final das contas chegou inteiro.

Sexta – 02 de Dezembro

Despachamos nossos equipamentos para Plaza Mulas às 7h (horário limite).

Pagamos US$ 12 por um desayuno com frios, pão, geleia, leite, café e chá. Senão teríamos que acordar mais cedo ainda só para tomar café da manhã.

Partimos pouco antes das 10h para Plaza Mulas carregando cerca de 10kg na mochila pois não cabia mais no 60kg de contratados.

 

Esse trajeto passando pela Playa Ancha é magnífico! Longo, parece que nunca chega, mas foi uma experiência incrível!

Foram 10h de caminhada, deu vontade de largar minha mochila pelo caminho, a mochila de 26L que eu utilizava não era adequada para carregar os 10kg.

Cheguei acabado mas muito feliz, afinal dizem que é segundo trecho mais difícil.

03/04 de Dezembro

Foram 2 dias de descanso, neste momento começamos a alterar nosso cronograma. Como não nos sentimos tão fortes, vimos que chegar em Nido de Condores ja seria ótimo! Trocamos a ida ao Cerro Bonet por mais um porteio para Canadá.

Conhecemos o Pablo da GeoTrek e Xavier o seu cliente que mais tarde conquistaria o cume.

Pablo foi uma pessoa excepcional, fez uma bela janta no primeiro dia que nos conhecemos e sempre foi uma pessoa generosa.

Segunda – 05 de Dezembro

Começamos o porteio para Plaza Canada foi difícil, foram 4h com muita neve e um terreno bem íngreme principalmente no trecho final. Deixamos a mala de transporte com gás, alimentos, roupa, etc.

Terça – 06 de Dezembro

Descanso.

Quarta – 07 de Dezembro

Segundo porteio para Canadá. Como meu pé estava molhando, resolvi ir sem as polainas para ver a polaina estava prejudicando a transpiração dos pés. Foi um grande erro pois na descida como tinha muita neve começou a entrar neve dentro da bota e começou a formar gelo dentro da bota prejudicando a mobilidade e parte do meu é ficou roxo.

Quinta – 08 de Dezembro

Descanso.

Sexta – 09 de Dezembro

Subimos pela terceira vez a Canada e agora ficamos em definitivo. Ao abrir a mola que deixamos em Canadá, descobrimos tudo molhado. Com o derretimento da neve, molhou a jaqueta e o papel higienico. Na próxima, deixa tudo dentro de sacolas plásticas.

Começamos a pegar neve “fazer” água. Pegue sempre neve de longe para não ter risco de pecar nada contaminado. Pegue de cima para não trazer terra/pedra. Eu não fervo a água, demora muito. Coloco 1 clorin e pronto.

Pela primeira vez, na viagem fiz o nº 2 ao céu aberto. Bom, como eu levei saquinhos daqueles transparentes fininhos e fazia neles. Depois fechava e colocava no saco preto de recebi na entrada do parque. Meu amigo fez direto no saco preto. Ai toda vez que tinha que abrir o saco, o cheiro era de matar.

Sábado – 10 de Dezembro

Saímos para portear Nido de Condores. A caminhada estava bem difícil, a neve estava bem fofa e afundava a perna até o joelho.
Paramos e pensamos um pouco, vimos um grupo subindo sem zig-zag e percebemos que nós estavamos subindo pela rota de descida “direta”. Por isso a gente dava um passo e voltava outro.
Pegando a rota correta de subida ficou mais tranquilo, mesmo a distancia sendo maior.

Ao chegar, a alegria foi imensa! Que lugar lindo! Deixamos o mala perto de uma pedra grande e descemos. O correto era ficar cerca de 1h para ajudar na aclimatação.

Domingo – 11 de Dezembro

A caminho de Nido em definitivo, um dia mais tranquilo apesar de carregar mais peso. Ao chegar o vento estava muito forte. Foi difícil armar a barraca, as mãos estavam congelando.

O visual de Nido era fantástico, acima das nuvens, acima de muitas montanhas da Cordilheira dos Andes e pensei, no dia seguinte eu aproveito. Me arrependo de não ter curtido mais a paisagem dando uma volta pelo acampamento, mas além do vento eu sentia frio.

A temperatura dentro da barraca superava os -20°C (imagina a sensação térmica do lado de fora), tudo congelava. Eu estava apenas com um isolante de EVA e sentia o frio subindo pelas costas, estava complicado de dormir. A Jaqueta que molhou em Canadá fez falta.
A garrafa térmica dentro da mochila segurava bem mais a temperatura dentro da mochila do que exposta. O fogo estava meio fraco devido ao frio, não devia ter deixado cartucho de gás exposto do lado de fora.

A idéia era ficar o dia seguinte descansando e no outro seguir em direção do cume. O plano era sair às 04h da manhã e caminhar até às 14h (cronograma modificado), e de onde a gente estivesse voltaríamos.

Segunda 12 – de Dezembro

Infelizmente por volta das 06h o André acordou com uma forte dor de cabeça, um dos sintomas do mal de altitude, tomou meu chá e foi no guarda-parque onde foi medicado e dormiu um pouco.

Passou 3h e o André não voltava, fui no guarda parques e estava um vento muito forte junto com a neve voando, ficava difícil até de respirar. Nessas condições tinha que usar a balaclava e os goggles. Cheguei na “casa” do guarda-parque e parecia que não tinha ninguém, estava começando a achar que tinham baixado o André de helicóptero e nem me avisaram.

Fui em outra tenda e nada, voltei na primeira e fiquei lá gritando ai o guarda levantou, ele estava deitado atrás da mesa e disse que o Andre foi medicado e quando estivesse melhor iria voltar. Fiquei mais tranqüilo e voltei para barraca.

O barulho do vento é tão alto que você tem que ficar gritando, senão as pessoas não ouvem, é bem complicado.

Depois de quase 2h ele voltou e disse que o guarda mandou ele descer por que se ele ficasse acordaria pior. Começamos a arrumar as coisas e descemos… gostaria de ter feito o “ataque ao cume”, mas para mim a cada acampamento que a gente atingia era uma vitoria, pois não era nada fácil. Fiquei feliz por ter chego até Nido de Condores.

Na descida paramos em Canada para pegar o lixo e as outras coisas que deixamos. Ai faltou espaço na minha mochila de 65L, amarrei algumas coisas do lado de fora mas isso prejudicava o balanço da mochila que estava muito para trás.

Em Plaza Mulas descansamos e senti aquela sensação de dever cumprido, no dia seguinte fomos ao Cerro Bonet fazer o nosso cume.

Terça – 13 de Dezembro

Uma caminhada tranquila em que a maioria fazem para aclimatar. Em termos de distância deve ser maior que Canadá, mas foi mais fácil para chegar, talvez por que a gente estava sem carga e não tinha neve. Vale a visita, tem uma bela vista de todo caminho que temos que subir de Plaza Mulas – Canada – Nido de Condores.

É um ótimo estimulo antes de subir para Canadá para quem não conhece.

Quarta – 14 de Dezembro

Descanso

Quinta – 15 de Dezembro

Último dia no parque, descemos em 7h em um ritmo forte, fizemos o check-out e a van nos deixou em Puente del Inca onde comemos uma lanche de milanesa e uma cerveja, que saudades!

Depois de 17 dias tomei um delicioso banho e dormi em uma cama! Luxos que só a civilização proporcionam, mas ficar longe disso tudo tem suas recompensas 🙂

1 Comentário

  • Responder Isolante térmico inflável 3 de fevereiro de 2016 at 20:11

    […] Retorno ao Aconcagua 2011 […]

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